terça-feira, 19 de agosto de 2008

Nathalia - pequena crônica vampiresca

Hoje vou diferenciar um pouco. Resolvi me aventurar e escrever um pequeno conto, o resultado vocês podem apreciar abaixo, espero que gostem.

M.´.

***

Nathalia
Pequena Crônica Vampiresca.
- Marcus...

- Marcus...

- Te Amo... Venha... Não tenha medo... Tenho esperado muito por este momento...

Marcus acordou transpirando, a voz que ouvira em seu sonho ainda ecoando em sua mente, uma voz tão sublime e doce. Vem tendo estes sonhos já a alguns dias, sempre do mesmo jeito.

Primeiro vem o torpor assim que deita, depois a escuridão, quando como num passe de mágica ela aparece, sim, que rosto lindo. E os olhos! São realmente de matar.

Mas hoje, hoje seria um dia diferente. Marcus já não se importava mais com seus sonhos, assim como seus sonhos se repetiam dia após dia, crescia nele uma vontade imensa de deixar este mundo.

E foi assim, decidido a dar cabo de sua própria vida que ele acordou, levantou, se preparou e, como todos os dias, enfrentou mais uma jornada num emprego enfadonho, que já não nutria em sua alma a mais baixa consideração.

Ainda assim, não conseguia tirar da cabeça a voz que sussurrava em seu ouvido no sonho que o vinha perseguindo como uma maldição.

Marcus vinha sofrendo de uma depressão que o atacava quase todos os dias com crises que iam desde o riso automático e sem emoção ao mais violento espasmo de dor.

Havia perdido quase tudo em menos de um ano. Perdeu seus pais num acidente de carrro há pouco mais de sete meses. Logo depois foi deixado pela mulher que mais amou, Sabrina. Ah! Como lembrava dela em seus mais secretos desejos.

Tudo foi muito rápido e quando percebeu estava enfiado em vícios, prostituição e promiscuidade.

Foi quando teve o primeiro sonho.

Mas, enfim, estava mesmo decidido a terminar de vez com todo o seu sofrimento.

Ao terminar seu expediente numa maçante empresa de informática, onde era obrigado a lidar com gente ignorante e burra, que tinham um rei na barriga, foi direto para a farmácia e com uma receita falsa, comprada com um traficante de cocaína na praça da sé, pegou seis cartelas de valium, um poderoso antidepressivo e foi para casa.

Pegou seu aparelho de mp3, mais uma dessas maravilhas modernas que nos permitem ouvir música em arquivos digitalizados de forma compactada, colocou uma música propícia ao clima (Glory Box, versão ao vivo com Portishead), foi até a garagem e pegou seu carro, um velho Dodge dart 1965, preto, de causar inveja a qualquer colecionador e saiu.

Ainda no transito pegou uma garrafa de vinho, abriu, e de um só gole bebeu quase metade do líquido púrpura, quase cor de sangue que preenchia aquela garrafa. Ainda sem dar tempo de pensar, pegou a caixa de valium, abriu e de uma só vez mandou nove comprimidos garganta abaixo. Mais um gole, mais alguns comprimidos.

Enquanto ia dirigindo foi batendo de leve os efeitos nefastos provocados pela mistura imprudente de álcool e remédios, quando começou passar pela sua cabeça lembranças de sua vida, desde a infância, até os dias de hoje.

Primeiro veio a lembrança, quase apagada, do seio materno, depois seus pais e familiares. Aos poucos, uma a uma, cada pessoa que ele conheceu nesta vida ia passando diante de seus olhos esbugalhados diante do fato inevitável, estava enfim morrendo.

Não sentia medo, sentia raiva, ódio por ter falhado tanto na vida, por não ter podido manter seus pais, a mulher amada, sentia ódio de si mesmo. Chorou. Chorou como uma criança que faz algo errado e quer uma chance para concertar.

Mas, já era tarde.

Sem que o torpor em que se encontrava o deixasse perceber, havia atingido a velocidade de cento e quarenta quilômetros por hora numa via da tráfego intenso.

Foi quando tudo aconteceu.

Primeiro um leve desvio, uma luz que o cegou por um pequeno instante, e a batida, o baque surdo de seus ossos quebrando de encontro a algo gelado como o aço.

Escuridão. Como no sonho.

De repente se deu conta do que havia acontecido. Havia sofrido um grave acidente, e estava de fato morrendo. Decidiu então, como um último ato de redenção, se entregar a dor que sentia e desmaiou.

Acordou instantes depois com um formigamento elétrico que percorria todo o seu corpo e ouviu ao longe uma voz lhe chamando.

Depois de muito esforço conseguiu abrir os olhos e em meio ao sangue que lhe escorria pelo rosto, reconheceu de imediato quem lhe chamava.

Era ela, a mulher do sonho, em carne e osso, e como era linda, mil vezes mais linda do que em seus devaneios.

E os olhos?! - Meu Deus! – pensou ele. Que olhos lindo, e como vibram, vibram como chamas.

Ela chegou mais perto e apesar de toda a dor que Marcus sentia, pegou-o pelo rosto. Suas mãos fortes como uma marreta.

Foi só então, quando ela falou que ele percebeu o que iria de fato acontecer.

- Marcus, meu amor, porque está fazendo isso com sua vida?

- A tempos venho te observando e devo confessar, amo você, amo toda sua inocência, amo sua beleza fúnebre de quem a pouco morreu.

- Porém não é ainda hora de se entregar. E por isso estou aqui. Por você, pelo que sinto e pelo que pode lhe acontecer.

Ela abriu a boca num singelo sorriso, porém ficaram perceptíveis a Marcus, como duas pérolas brilhando no escuro, pequenos caninos que se projetavam através de seus lábios carnudos.

- Marcus, não se pode flertar com a morte e sair ileso. E você flertou muitas vezes com o ceifador, esta é a última. Pois quando se flerta com o Anjo da morte, ele vem sedento de sangue e dor, e só vai embora quando leva junto uma alma.

- E hoje, eu sou este anjo, e vim para levar você comigo. Você será meu eterno companheiro. Meu amor por toda a eternidade. Seja comigo mais um a perpetuar uma espécie que há muito vem existindo entre os homens.

Neste momento, como num passe de mágica, ela cravou os dentes em seu pescoço. E como num choque dos mais fortes, Marcus sentiu seu corpo todo formigar, seu coração disparou, sua vista começou a embaçar, o coração batendo cada vez mais forte, ele seria capaz de lembrar depois, foi estranho, mas sentiu mesmo uma leve excitação e o desejo de que aquele momento não acabasse nunca.

Antes de perder a consciência, ele reuniu todas as suas forças e perguntou:

- Mas, quem é você?!

Ela, terna como uma amante dócil, uma mãe que cuida do recém nascido, olhou profundamente em seus olhos, atingindo o âmago de sua alma e disse:

- Me chamo Nathalia, e a partir de hoje, sou sua. E você será meu. Para todo o sempre.

Sim, para todo o sempre.

Fim.

4 comentários:

  1. Lembra do livro que eu estava lendo aquele dia???

    Lembra a sua crônica...recomendo...

    "O Crespúculo"...

    bjs

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  2. Olá Marco,

    O conto está ótimo. mostra exatamente todo aquele temor quando uma pessoa está perto da morte.
    Nathalia é uma vampira que aprecia cuidar dos que ama e os abraça para si. eternamente. deve ser mesmo uma vampira encantadora.

    Todos sonhamos com uma vampira assim.

    Gostei muito da história e espero poder ver mais sobre este seu trabalho nos contos de vampiros.

    abraços e escreva sempre.
    Adriano Siqueira

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  3. Ótimo conto, Será que é preciso estar ao extremo a ponto de nada importar para perceber melhor os fatos? Ela sempre esteve lá...

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