segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Odisseia da Vida - por Marcos Torrigo

A odisseia da Vida
O desenvolvimento insustentável e a degradação planetária

por Marcos Torrigo

Vivemos um momento único na trajetória humana no planeta. Com o desenvolvimento
tecnológico e o avanço da ciência, houve intenso crescimento populacional e também o
aumento da expectativa de vida . Entretanto, isso defronta a humanidade com alguns desafios
à sua sobrevivência, bem como a da biodiversidade do planeta. Segundo especialistas, já
estaria em curso uma extinção em massa de diversas espécies por conta da ação humana.

Diante desse cenário, uma questão ética se sobrepõe: é justo que, devido ao nosso
consumismo, nossas máquinas, construções e dejetos tóxicos, deixemos de conviver com
tigres, leões e jaguares selvagens? Devemos abrir mão da beleza das florestas, flores raras
e plantas medicinais? Carregaremos na consciência a responsabilidade pelo ocaso das
sociedades tradicionais, aborígenes, índios e inuítes que estão completamente associados à
natureza que os cerca? Queremos viver num mundo assim?

A pressão que exercemos é gigantesca, pois já consumimos em um ritmo maior do que a
capacidade de o planeta gerar recursos. Também ocupamos vorazmente a superfície terrestre
com nossas estradas, cidades, plantações e pastagens. Aliás, para onde você acha que vai
o óleo de cozinha, o detergente, o amaciante e demais produtos químicos que utilizamos em
nosso dia a dia? O destino são os rios e oceanos, ou seja, jogamos nosso lixo na casa de
outros seres vivos. Isso sem contar com o plástico e seus efeitos nocivos na vida dos animais,
os quais morrem aos milhares simplesmente porque alguém prefere as sacolinhas plásticas
às sacolas de pano das nossas avós. Esses são somente alguns exemplos para demonstrar o
peso das nossas ações sobre o planeta.

Há alternativas tecnológicas que podem ser utilizadas para garantir um desenvolvimento
sustentável. Entretanto, ainda não o são ou por comodismo ou por ferirem interesses
financeiros questionáveis, apoiados em premissas errôneas e concepções ideológicas
ultrapassadas.

Enquanto escrevo estas linhas um sabiá pousa nas árvores do meu jardim e canta. Será que
meu sobrinho quanto tiver a minha idade terá este singelo prazer?

A visão de mundo, predominantemente pautada pelo cristianismo e cartesianismo, concebe o
ser humano apartado da natureza. Infelizmente, trazemos isso como um meme, praticamente
um programa mental, que norteia as nossas ações e concepções de mundo. O sociólogo
francês Edgar Morin, em entrevista à Guitta Pessis-Pasternak que consta do livro Do Caos à
Inteligência Artificial, aponta que os postulados cartesianos são norteados pela “divisão entre
sujeito e objeto, entre a natureza e o homem que deve dominá-la”. Pessis-Pasternak indaga
Morin se a busca por dominar a natureza não seria uma projeção do monoteísmo ocidental.
Ele concorda e ainda vai mais longe, demonstrando como essa concepção não tem sentido,
uma vez que não estamos no centro do universo, mas na periferia. Além disso, nos compara
a aprendizes de feiticeiro ao tentarmos dominar a natureza e o nosso planeta. Para Morin, é
impossível separar o ser vivo do seu ecossistema, o indivíduo de sua sociedade, o sujeito do
objeto.

A concepção de mundo que separou o ser humano da natureza fundamentou a conquista da
América pelos europeus e a submissão dos povos indígenas. Tendo como base uma proposta

evangelizadora e eurocêntrica, os índios foram rotulados como “selvagens” e “bárbaros”.

Claude Lévi–Strauss, no prefácio ao livro de Marcell Mauss, Ensaio sobre a dádiva,
entretanto, pondera a inigualável e admirável capacidade dos americanos nativos em utilizar
as potencialidades do novo meio natural, domesticando animais e plantas. Por exemplo,
descobriram como incorporar à sua dieta a mandioca brava, um tubérculo letal em sua origem,
neutralizando sua toxicidade. Além disso, europeus aprenderam a usar o tabaco, a batata, o
tomate, o cacau, o milho, o amendoim, a borracha e várias outras espécies com os americanos
nativos.

Podemos ampliar a descrição de Lévi-Strauss ao lembrarmos do yage (ayahuasca, daime e
outras denominações), cujo preparo demanda a mistura de diferentes plantas, revelando sua
complexidade de elaboração e, consequentemente, alto grau de conhecimento dos recursos
naturais. Paralelamente, pode-se destacar a domesticação dos camelídeos, como a alpaca e a
lhama, em larga escala nos Andes. Por seu turno, os maias desenvolveram um calendário mais
preciso do que o europeu e criaram o conceito de zero, que Lévi-Strauss nos esclarece ter sido
descoberto pelo menos meio milênio antes dos indianos, sendo posteriormente levado pelos
árabes à Europa. Isso sem contar com as contribuições culturais dos povos nativos às artes, à
religião e à organização social.

Desumanizar o outro e a sua cultura, assim como estabelecer de forma etnocêntrica valores
dominantes como padrão, é um grave erro em todos os sentidos. Ao privar a humanidade de
conviver com culturas variadas e as suas infinitas respostas ao desafio da existência, essa
massificação é nefasta, embora infelizmente ainda se faça presente em diversas culturas e
nações, dentre as quais podemos destacar o Brasil atual. Nosso país, como sabemos, tem
condições privilegiadas em relação aos recursos naturais, porém lamentavelmente este ano de
2011 pode entrar para história brasileira e mundial como um dos mais trágicos. Em nome de
um projeto de desenvolvimento ultrapassado que beneficia interesses estrangeiros, algumas
poucas empresas privadas e interesses políticos duvidosos, será liberada a destruição das
florestas numa área de quase duas vezes o tamanho do estado de São Paulo – 420 mil km2 –
caso seja aprovado o projeto que prevê a reformulação do Código Florestal.

A decisão para tal, em vez de ter levado em conta a opinião de cientistas, técnicos e
especialistas, as modificações propostas foram feitas por políticos de forma atabalhoada e
sem base. O resultado disso é que as maiores entidades científicas do país condenaram as
alterações, e a própria ONU, por meio do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change),
alertou para os riscos trazidos pela nova proposta.

Dentre os problemas apontados, o novo código possibilita a utilização de topos e encostas de
morros. O leitor lembrará os episódios recentes dos desabamentos nas regiões serranas do
Rio de Janeiro, as mortes e prejuízos financeiros decorrentes. As matas ciliares que protegem
os rios também serão atingidas, aumentando a exposição à erosão e consequente falta de
água, o que é um contrassenso na atual conjuntura mundial que já antevê escassez dos
recursos hídricos. Muitos especialistas apostam que as guerras de hoje por petróleo serão
substituídas por guerras por água.

Em suma, as mudanças no Código Florestal vão permitir uma maior ocupação da terra,
em especial da Amazônia. Na lógica gananciosa e sem fundamentos, isso aumentaria a
capacidade de produção de grãos e a sua consequente exportação. O eixo de criação de gado
migra para Amazônia, promovendo uma gigantesca devastação. A partir daí, será uma questão
de tempo para a tomada do espaço pela soja, a mineração e, claro, a ocupação humana e
obras infraestruturais subsequentes.

A demanda mundial por comida é gigantesca, especialmente nos países populosos como a
China. O Brasil tem condições de ser o maior produtor de alimentos do mundo, mas sem água

e sem os cuidados básicos com o manejo do seu ambiente essa conquista fica cada vez mais
distante, além de trazer riscos de diversas naturezas.

Há uma questão geopolítica importante, mas que não tem recebido acompanhamento que lhe
é devido pela mídia. A China desbancou os Estados Unidos e é atualmente o maior parceiro
comercial do Brasil. É evidente a afinidade ideológica com o governo e, pelo visto, sua “matriz
de desenvolvimento” também serve de (mau) exemplo. A China tem comprado vastas
extensões de terra no Brasil e na América Latina e, quando não age diretamente, financia
agricultores locais. O Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada –, em seu relatório “As
Relações Bilaterais Brasil-China: A Ascensão da China no Sistema Mundial e os Desafios para
o Brasil”, salienta que as relações com a China constituem oportunidades, entretanto podem
ser ameaçadoras a longo prazo.

Nesse documento, o economista do Ipea, Eduardo Costa Pinto, traz afirmações também
apontadas por especialistas consultados pelo jornal norte-americano The New York Times em
reportagem na qual define a relação comercial entre Brasil e China de “neocolonial”, na qual
cabe ao Brasil o papel de colônia.

Os dados do Ipea apontam como foco das exportações brasileiras o mercado de commodities.
É fácil observar que importamos produtos industrializados e exportamos matérias-primas.
Limitar as exportações brasileiras às commodities agropecuárias e minerais não representa
uma opção interessante, uma vez que fragiliza a posição do país caso ocorra exaustão
destes recursos. Logicamente, como os produtos industrializados têm maior valor agregado
e empregam mais pessoas para o processo de fabricação, há o estimulo à maior capacitação
técnica. E o mais alarmante é perceber que a economia brasileira está cada vez mais
dependente da China, já que o país asiático tem investido bilhões no setor energético
brasileiro, também buscando o controle das operações, o que fere a soberania nacional.

Ainda no mesmo relatório do Ipea, outra informação também repercutida pelo The New York
Times dá conta de que os chineses têm comprado empresas brasileiras ou a elas têm se
associado para assim garantir as exportações com o interesse evidente nos recursos naturais
brasileiros.

Segundo informação publicada no site da Presidência da República, “a China já superou os
Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil, com um movimento de 56 bilhões de
dólares em 2010, o que é 25 vezes mais do que em 2000”. Ainda segundo a página da internet,
em matéria sobre projeto de construção de estradas: “Hoje o Brasil tem três alternativas para
chegar ao Pacífico e levar seus produtos à Ásia: sair dos portos brasileiros e contornar o
continente em direção à complicada passagem do Estreito de Magalhães, na Patagônia, Chile;
contornar o continente em direção ao norte e atravessar o Canal do Panamá; ou utilizar o
corredor interoceânico já existente entre Buenos Aires, na Argentina, e o porto de Valparaíso,
no Chile”.

As obras feitas com o dinheiro brasileiro utilizam a matriz rodoviária, iniciativa questionável
ao considerarmos seus altos custos de implementação, além da poluição gerada pelo seu
uso. Talvez uma matriz ferroviária bem estruturada atendesse melhor as necessidades de
transporte de mercadorias. Por outro lado, há projetos de hidrovias associadas a muitas
hidrelétricas na região amazônica. A Usina de Belo Monte é uma delas e visa a fornecer
energia elétrica a mineradoras e a outros projetos na região.

Por qual motivo esses megaprojetos não estão estampados nas páginas de todos os jornais,
abordando seus impactos ambientais altíssimos e o gigantesco custo financeiro? Já que
vivemos em um país democrático, o governo não deveria consultar a sociedade?

E, nessa conjuntura, as comunidades nativas não são respeitadas, tampouco o habitante
das cidades que vê seu dinheiro sendo usado na construção de hidrelétricas, hidrovias,
portos, estradas e mais uma infinidade de obras sem um planejamento de longo prazo.
Como resultado desse conjunto de iniciativas atropeladas desde sua concepção, não
desenvolvemos as nossas reais capacidades e vocações, já que apenas copiamos uma matriz
de desenvolvimento antiquada.

Imaginem quantos segredos a maior floresta do mundo abriga. Tal qual fizeram os povos
nativos no passado, que se beneficiavam de uma relação estreita com a natureza, poderíamos
descobrir plantas com propriedades terapêuticas e com potencial para colocar o Brasil na
vanguarda de uma nova medicina. De acordo com dados do Ibama, cerca de 20 mil extratos
de plantas nativas indispensáveis à fabricação de remédios saem por ano ilegalmente do Brasil
para ser empregados na fabricação de medicamentos e cujo mercado mundial alcança valores
de US$ 400 bilhões ao ano. Vale lembrar que o Brasil é o país com a maior biodiversidade no
mundo.

Por fim, não podemos excluir a importância da natureza e suas florestas em relação às
mudanças climáticas globais.

A natureza presta inúmeros serviços gratuitos e “invisíveis”, os quais acabamos não dando
atenção porque estamos acostumados a eles. O ar que respiramos, a água que bebemos,
controle de enchentes e desabamentos, polinização (sem abelhas a fome do mundo
aumentaria) e vários outros.

No caso do Brasil, o climatologista Antônio Nobre salienta que a floresta amazônica impede
que o país se transforme num deserto. Ela produz gotículas de água que são levadas pelos
ventos como rios aéreos. Uma das causas do desequilíbrio ambiental no mundo é justamente o
seu comprometimento.

A importância econômica da natureza motivou, inclusive, um estudo profundo chefiado pelo
economista sênior do Deutsche Bank Pavan Sukhdev "A Economia dos Ecossistemas e da
Biodiversidade". Nele, é comprovado o óbvio: que é muitíssimo mais barato a natureza cuidar
de alguns processos vitais ao invés de nós humanos nos incumbirmos de criar mecanismos
próprios para tal.

Mais um texto importante de Morin, “Os sete saberes necessários à educação do futuro”,
aborda que nossa atual “Condição Planetária” se tornou possível com a internet e a
comunicação de massa, embora o fenômeno tenha origem nas grandes navegações. Isso gera
o desafio da informação, hoje em dia em quantidades gigantes, e o que fazer com ela, já que a
educação formal não contempla essa avalanche de dados.

Ele alerta para os crescentes riscos aos quais a humanidade está exposta: a ameaça ecológica
e a degradação da vida planetária. Urge, assim, a necessidade não só de se conhecer
profundamente essas questões, mas descobrir soluções por meio de uma consciência
planetária. Isso não é uma tarefa fácil, pois envolve processos sociais, econômicos e
ideológicos.

Interligados e complexos, esses problemas estão inter-relacionados, da mesma forma que o
fenômeno da escassez de alimentos está diretamente relacionado à questão ecológica. E com
esse raciocínio o autor reforça que a humanidade é agora uma comunidade de destino comum.

Morin também aborda que aquilo que denomina de “antropo-ético”, ou seja, a capacidade de o
ser humano desenvolver a ética, a responsabilidade e a autonomia pessoal, em complemento
à participação social essencial à união do gênero humano, uma vez que temos um destino
comum. A democracia é fundamental nesse processo, já que permite a alternância de poder

com os cidadãos exercendo sua responsabilidade cívica por meio do voto.

Nesse cenário, é importante comprometer o indivíduo com essa consciência social, ou seja,
aquilo que o conduz à cidadania. As ONGs e o trabalho voluntário, por exemplo, são campos
para o desenvolvimento da ética, pois vão além dos Estados nacionais, da política e mesmo da
religião.

Infelizmente, ainda há muitos indivíduos com visão fragmentada da realidade, especialmente
na política. Entretanto, agora, mais do que nunca, é imprescindível que se entenda a
complexidade do planeta para que se crie uma ética comum ao gênero humano.

Trazendo essa problemática para mais perto de nosso cotidiano, termino este texto
conclamando você, leitor, à ação. Procure os políticos em quem votou e mostre o seu
descontentamento. O Senado Federal abriu um canal de comunicação sobre o Código
Florestal. Faça bom uso dele. Complementarmente, há centenas de movimentos e entidades
de envergadura (como a OAB, por exemplo) que são contrárias às mudanças propostas ao
Código Florestal. Em paralelo, estão ocorrendo diversas manifestações em vários lugares do
Brasil. Dê a SUA contribuição à Vida.

O planeta é similar a um grande ser vivo com as condições ideais para a existência da vida.
Estamos tão acostumados com seu equilíbrio natural que nem percebemos quanto ele é frágil.
E, caso o pior aconteça, não teremos para onde ir. Se você não se importa com as outras
formas de vida, se importe ao menos com a sua vida e com a das pessoas que você gosta.
Isso porque o que atualmente chamamos de “desenvolvimento” está se tornando insustentável,
inclusive para a espécie humana.

Está em discussão no Senado Federal o PLC 30/2011, que trata da reforma do Código
Florestal brasileiro. Você pode participar do debate, encaminhando sua manifestação.

Ajude o Senado a fazer leis melhores. Participe!

http://www12.senado.gov.br/codigoflorestal/sugestao

Fontes:

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Introdução de Claude Lévi-Strauss, Marques.
Lisboa: Edições 70, 1988.

PESSIS-PASTERNAK, Guitta. Do Caos à Inteligência Artificial. São Paulo:Unesp,
1993

As Relações Bilaterais Brasil-China: A Ascensão da China no Sistema
Mundial e os Desafios para o Brasilwww.ipea.gov.br/portal/images/stories/.../
110408_estudochinaipeamre.pdf

China’s Interest in Farmland Makes Brazil Uneasy

http://www.nytimes.com/2011/05/27/world/americas/27brazil.html?

_r=1&pagewanted=all

China Conexão Atlântico-Pacífico integra continente e facilitará comércio exterior

http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2011/02/07/conexao-atlantico-pacifico-
integra-continente-e-facilitara-comercio-exterior

Os interesses por trás das hidrelétricas da Amazônia

ttp://colunas.epoca.globo.com/planeta/2011/06/06/o-que-esta-por-tras-das-
hidreletricas-da-amazonia/

Os sete saberes necessários à educação do futuro

Portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EdgarMorin.pdf

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