quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Traficante Caridoso - por Marco Antonio Damaceno

Um pequeno conto, cotidiano, de minha autoria, espero que gostem.

O Traficante Caridoso

Betinho acordou cedo, escovou os dentes (coisa que fazia raramente), trocou de roupa e saiu furtivamente, sem que sua mulher e filho acordassem. Antes de sair, porém,por precaução pegou na gaveta, no criado-mudo ao lado da cama, um velho e surrado revolver calibre. 38, e para não se esquecer de nada pegou também o envelope com uma boa quantia de um dinheiro que havia juntado durante os mesesmais recentes.

Já havia algum tempo que sentia uma estranha apreensão e não sabia ao certo de onde vinha e nem o porquê sentia tal coisa. O fato é que neste dia ele acordou como sempre, radiante. Decidiu que não daria importância hoje a este estranho sentimento.

Olhou para a esposa e o filho pequeno e que ainda dormiam a sono solto, e notou com uma pequena surpresa o quanto era bela a cena, e percebeu então o quanto os amava e como haviam mudado completamente o rumo de sua vida. Ainda na porta do pequeno apartamento onde moravam olhou mais uma vez para o quarto, disse um “papai ama muito vocês”, quase inaudível, ainda com medo de acordá-los e saiu.

Betinho, e raum homem violento com seus inimigos, não perdoava nada e a qualquer injúria partia para a briga, quase sempre terminando com um dos lados baleados...Betinho, por conta disso já havia matado muitos, mas nunca matou um inocente.

Foi até ocarro, entrou, e ao dar partida, sentiu de leve a brisa da manhã que entrava pela janela lateral, percebeu que estava feliz, estava a caminho de cumprir com uma boa ação.

Betinho havia entrado no mundo do crime mais pelo inconformismo com a política do país do que por pura aventura, como a maioria dos jovens hoje em dia. Não admitia que em um país tão grande e rico como o Brasil houvesse leis que favorecessem sempre os mais ricos e abastados. Decidido a mudar essas mesmas leis, resolveu por transgredi-las e como um Robin Hood moderno, galgou os mais altos degraus da facção – como era conhecido o grupo criminoso do qual fazia parte.

Era um homem,embora criminoso, extremamente religioso e este foi o motivo pelo qual estava agora a caminho do banco.

Ao longo de sua vida, passou por muitos altos e baixos, foi preso uma vez e conseguiu sair em liberdade condicional, época em que tomou contato com uma comunidade profundamente carente, à margem da sociedade, lá no extremo da cidade onde morava, e jurou que um dia iria ajudar todas aquelas pessoas. Este dia havia chegado.

Betinho entrouno banco, sem saber, no entanto, que estava sendo seguido desde que havia saído de casa. Religiosamente fez seu depósito na boca do caixa e ao caminho da saída ligou para a entidade caridosa para comunicar, sem se identificar, que havia feito um depósito no valor de 300 mil reais – Um pequeno valor para muitos dos políticos ricos e verdadeiros ladrões das riquezas e inocência das pessoas deste país, mas um grande passo rumo à sua redenção.

Ao sair do banco, indo em direção ao seu carro, estacionado estrategicamente do outro ladoda rua, ouviu uma oz gutural o chamar;

- Ei Betinho,faz um 10 aí mano! “Vamo” trocar uma idéia rapidinho.

Betinho, que conhecia de longe a voz do delegado Almeida - um dos mais cruéis exemplos do que a sociedade e o sistema podem fazer com a corrupção – sentiu os pêlos de todo o seu corpo se eriçarem, e num ímpeto, sem olhar pra trás correu.

Sabia o que lhe estava reservado e sem temer seu fatídico destino desatou a fugir, no seu pensamento só havia espaço para sua esposa e seu filho que, neste momento,estavam acordando de um sono profundo e restaurador. Enquanto corria, o delegado Almeida ia atrás brandindo sua luminosa pistola 9mm, de origem duvidosa, de numeração raspada, pois para o que estava prestes a fazer, não poderia utilizar a arma oficial da corporação.

Betinho corria, Almeida gritava, e em sua casa o filho de Betinho perguntava pelo papai para a mamãe.

Neste momento,sem perceber um carro que dobrava uma esquina, Betinho acabou se assustando e escorregando, quase caindo embaixo do veículo.

Ao ver seu algoz se aproximando,como um leão acuado por hienas famintas, Betinho se lançou sobre o Dr. Almeida (como era conhecido o delegado corrupto no bairro) e os dois entraram numa longa e dura luta corporal. Ao redor apenas os quase sonâmbulos transeuntes observavam a cena já comum, mas mesmo assim irreal que estava acontecendo.

De repente se ouve um estampido. Betinho havia puxado o .38 da cintura , mas, não deu tempo nem de engatilhar. O Dr. Almeida havia baleado o rapaz, agora inerte no chão,bem no meio da testa.

Ao cair,Betinho ainda se lembrou e visualizou o rosto de sua esposa e filho, lembrou-se então de cada criança que estava agora para receber os proventos comprados como dinheiro do tráfico de drogas que juntou todos estes meses, e sentiu uma estranha paz, um sentimento mórbido de dever cumprido, misto de saudade, amor,paz e solidão.

"Papai ama vocês..." balbuciou...Fechou os olhos e se entregou ao torpor que agora tomava contade todo o seu corpo.

Em casa e no bairro, ninguém nunca soube do ato caridoso do Betinho, para muitos, foi apenas mais um traficante que morreu num confronto com a policia.

O fato é que essa foi a vida de Betinho e assim ele morreu.

Fim.

Um comentário:

  1. Este conto nos faz questionar a condição da sociedade atual e nossa própria condição, também observar como lidamos com a noção de certo e errado neste mundo. Dizem que estes conceitos são culturais, temporais, geográficos, enfim, na globalização, como nos situar? Ei, será que existe um gps para distinguir esta questão, ou basta pisar no chão e parar de negar a realidade? Ótimo conto! Parabéns.

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M.